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Por Marinilza Silva
Estamos vivendo um tempo no qual a palavra de ordem, ou, o modismo é falar
e implantar programas de Qualidade de Vida no Trabalho: relaxar, alongar,
fazer yoga, esporte, lazer, programas de saúde, e tantos outros.
No meu entender, estamos combatendo ou evitando
sintomas, mas não estamos
analisando as causas do que está rebaixando a Qualidade de Vida no Trabalho
e fora dele.
Estamos simplesmente aceitando o impacto de transformações mais amplas,
vindas de fora, e deixando passivamente que elas corroam nossas vidas em
nome de uma capacidade de adaptação que hoje chamamos de "resiliência".
Até quando?
Há alguns anos, a revista Veja fez uma matéria que foi capa, sobre profissionais
que trabalhavam de 12 a 16hs por dia. Eu li a matéria pensando que iria
encontrar uma crítica a esse hábito, uma queixa dos profissionais (eu sou
da turma que acreditou na proposta do ócio criativo). Mas não, os profissionais
se orgulhavam de seu empenho e a matéria apontava-os como modelos a serem
seguidos. Eu não me convenci e, na verdade me assustei: como estariam eles
administrando seus demais papéis? Onde arranjariam tempo para outras atividades
alem do trabalho? Algumas semanas depois, um evento aterrador: um executivo
esqueceu seu filho fechado no carro e a criança veio a falecer. Que preço
absurdo a ser pago por não ter espaço mental para aqueles que ele amava.
Com 12 a 16 hs de trabalho fica difícil pensar ou sintonizar em qualquer
outro aspecto da vida, fica difícil relaxar e desligar dos assuntos profissionais.
Além disso, as ferramentas, que deveriam facilitar a vida, tornaram-se
armas perigosas. A Internet e o celular permitem controle remoto e invasão
de privacidade. Qualquer executivo pode ser encontrado a qualquer dia e
hora. Não adianta deixar o celular na caixa postal, pois algumas empresas
exigem retorno de mensagem em 10 minutos. Serão esses os que deixam celular
ligado no cinema, no teatro, no restaurante? Isso pode acontecer num fim
de semana, nas férias...A justificativa é que eles são "imprescindíveis".
Todos estão sujeitos à pressão para ser "o melhor", "o vencedor". Sabem
que, se não forem, há uma fila de desempregados para ocupar seu lugar.
A competitividade é a palavra de ordem.
Fora e dentro da organização.
Imprescindíveis, mas facilmente descartáveis.
Errar era humano. Agora pode ser indicação da necessidade de substituição.
Quando a oferta é grande, o custo de substituição pode ser menor do que
o de treinamento e orientação. Tempos difíceis! Desabafar com quem?
Por muito tempo incentivamos nas organizações relações abertas e francas.
Mas quem falará abertamente de seus erros e dificuldades num ambiente de
competitividade e punição?
Em tempo de guerra, fingir-se de morto pode ser
estratégia de sobrevivência.
Será?Para onde irá este impacto?
Christophe Dejours, quando fala sobre Psicopatologia
do Trabalho, fala sobre sofrimento admitindo que
este faz parte do trabalho, devido a diferença
existente entre Trabalho Desejado e Trabalho Real. Se o trabalhador puder
compartilhar com os outros, conversar sobre as dificuldades encontradas é possível
transformar o sofrimento em Sofrimento Criativo. Se a possibilidade de
compartilhamento não existir, o Sofrimento se tornara patológico podendo
derivar em vários tipos de doenças físicas e mentais...
Estamos vivendo um processo altamente doentio.
Talvez, sem nos darmos conta, estejamos alimentando
práticas e posturas altamente nocivas à Qualidade
de Vida no Trabalho e à Qualidade de Vida como um todo. Ou, no mínimo,
talvez não estejamos fazendo nada para combater o impacto e as conseqüências
nas nossas vidas de um modelo econômico avassalador.
É preciso analisar a questão da Qualidade de Vida no Trabalho com maior profundidade.
E preciso abrir espaço para discussão do tema. Talvez, em sigilo e em campo protegido.
Sigilo e proteção para falar até sobre o medo de falar...
Não basta que cada profissional tenha acesso a terapias individuais para
tratar sua ansiedade, suas dificuldades, seu stress. É fundamental, o compartilhamento
com outros profissionais da mesma organização com vivencias semelhantes
e sujeitos a mesma cisão entre o trabalho desejado e o real, entre o discurso
e a pratica, ou seja, que experimentem o mesmo tipo de sofrimento.
Não estou aqui julgando organizações e afirmando que algumas imprimem essa
cisão aos seus trabalhadores. Estou indo além. O sistema econômico neoliberal,
como o estamos vivendo, está levando todas as organizações a funcionarem
dessa forma. As organizações não medem esforços para ter competitividade
e garantir sua sobrevivência. Mas, pensando nas pessoas, nos seres humanos
que atuam nessas organizações, resta saber quem sobreviverá.
Marinilza Silva
Psicóloga, psicodramatista, consultora de RH.
Professora Qualidade de Vida no Trabalho na pós-graduação
do FIA USP
marinilza.silva@terra.com.br
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