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* Jaime Pinsky
Três quintos das empresas brasileiras declararam realizar
ações sociais
Tem gente que não gosta mais de falar
de cidadania, tal o excesso de exposição a que a palavra foi
submetida, com o conseqüente esvaziamento de seu conteúdo. Entende-se
isso perfeitamente. Afinal, confunde-se cidadania com boas maneiras,
reduz-se o termo à proteção do consumidor, manipulam-se pessoas
em nome de programas mal organizados ou inviáveis, aproveita-se
o conceito para economizar impostos e divulgar gratuitamente
esta ou aquela marca.
Contudo, por meio da História, é possível definir cidadania como o conjunto
de direitos civis, políticos e sociais a que todos têm direito. Talvez
se pudesse acrescentar que prover esses direitos é responsabilidade dos
estados nacionais que abrigam as pessoas, sejam elas cidadãs plenas,
ou não. Mas isso talvez seja pedir demais a nações que abdicaram da obrigação
de estruturar estados de bem-estar social e buscam — apenas e na melhor
hipótese — não interferir de forma muito negativa no dia-a-dia dos habitantes.
Por outro lado, e talvez em decorrência da atitude dos estados nacionais
após a queda do muro de Berlim (poupo o leitor de explicar a relação
entre uma coisa e outra, por ser óbvio), empresas e organizações não-estatais
estão tomando para si o ônus (e o bônus) de atuar de forma pública, não
só em busca de soluções imediatas para a colocação do seu produto, mas
de maneira responsável, visando tornar o capitalismo menos selvagem e
o mundo mais habitável. Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas), cerca de três quintos das empresas brasileiras com um ou
mais empregados declararam realizar, em caráter voluntário, algum tipo
de ação social.
Mas não são só as empresas. De todo lado pipocam iniciativas realmente
cidadãs, destinadas a fazer com que as pessoas possam sentir-se participantes
do tecido social da Nação, e não moradores de favor. Nesse sentido, movimentos
de juízes, promotores e ecologistas unem-se a grupos que lutam contra
o desemprego e más condições de moradia. Associações e grupos anti-racistas
combatem lado a lado com entidades feministas e pastorais que atuam pela
dignidade do migrante e do imigrante, assim como das entidades que atendem
os desassistidos. Intelectuais, jornalistas e membros do governo buscam
alternativas à falta de oportunidades para os jovens, de maneira que
a leitura se universalize. A sociedade, enfim, levanta-se de um sono
de cinco séculos. A proverbial passividade está sendo substituída por
mobilização.
O livro Práticas de Cidadania, por exemplo, mostra parte do muito que
está sendo feito nesse campo. Voluntários como Cláudia Costin, Gilberto
Dimenstein, Marcio Pochman, Marina Silva, Milu Vilella e Oded Grajew
descrevem experiências concretas e bem-sucedidas no campo do chamado
Terceiro Setor. Há muitos outros exemplos espalhados por todo o Brasil.
Afinal, há um país que constrói e, mais do que acreditar, pratica solidariedade.
Fonte: http://www2.uol.com.br/canalexecutivo/artigosout7.htm
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