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21/mar/2010 - ENTREVISTA: Como lidar com a raiva no ambiente de trabalho?

Com os ambientes corporativos cada vez mais competitivos e a demanda por produtividade cada vez maior, muitos profissionais focam na produtividade da companhia onde trabalham e deixam sua saúde emocional em segundo plano. Um rompante de raiva de um executivo pode destruir um trabalho que levou meses para ser desenvolvido, e também os relacionamento com os colegas. A autora do livro " Tenha Calma! Como lidar com a raiva no trabalho e transformá-la em resultados positivos", Vera Martins, em entrevista ao Jornal do Commercio, diagnostica a cadeia que desemboca na raiva e sugere saídas para o mal. A publicação foi lançada em dezembro pela editora Campus-Elsevier.

JORNAL DO COMMERCIO – O que a senhora quer dizer com raiva? É irritação constante ou aquele estouro, o rompante?
VERA MARTINS – A raiva é a lembrança de ter sido ferido,é uma resposta a um estado de desprazer. A raiva é uma reação natural à frustração e a primeira resposta a uma perda caracterizada como algum tipo de dor física ou emocional. É naturalmente inclinada a ser expressa, não sendo um sentimento reflexivo, como a ansiedade, nem uma sensação passiva e voltada para si mesmo, como a mágoa. A raiva é voltada para a ação, seja a retaliação ou a autodefesa. É uma energia que se move dos pés ao topo da cabeça.

É uma emoção contagiosa?
– A raiva pode contagiar um ambiente de trabalho, principalmente aquele, onde os profissionais não se sentem importantes, competentes e queridos; não se sentem livres para expressar seus sentimentos, suas opiniões, suas necessidades e não são reconhecidos e levados a sério; ao contrário, se sentem ameaçados de perder o emprego e da concorrência desleal.

Nesse ambiente, a raiva se torna um vírus que permeia os processos e os relacionamentos humanos, contaminando principalmente os profissionais fragilizados e vulneráveis. São pessoas não assertivas, que se comportam de forma passiva, engolindo sapos ou reagindo com agressividade, sarcasmos e ironia. Sabemos que a raiva, normalmente, acompanha esses sentimentos.

A raiva é diferente para pequenos, médios e grandes ambientes de trabalho? Em ambientes menores é mais fácil ser afetado por uma pessoa raivosa?
– Provavelmente é mais fácil ser afetado pela raiva em ambientes menores porque a falta de privacidade leva o profissional a sentir seu eumais exposto e invadido, e isso, por si mesmo, pode ser um gatilho da raiva. Assim como o medo surge da sensação da ameaça, a tristeza da sensação da perda, a raiva origina-se da sensação de invasão e quebra das regras internas.

É possível transformar esse sentimento? Como? De onde vem ele?
– É possível sim transformar a raiva destrutiva em produtiva, isto porque a raiva é energia e tem a força de transformar e mudar uma situação inadequada para uma situação mais bem resolvida, impulsionando as pessoas a repensarem novas alternativas de comportamento.

Como expressá-la positivamente? É melhor colocar para fora, sem agressividade e de preferência não reprimir, pois a raiva reprimida nutre sentimentos ruins no ambiente, proliferando, por exemplo, a mágoa, sentimento que fortalece o desejo da vingança e retaliação.

O importante a destacaré que a expressão da raiva deve ser responsável e madura, ou seja, a raiva deve se originar de um motivo justo e deve ser expressa com a intenção de construir relacionamentos saudáveis. Só assim será possível transformar a raiva em resultado positivo no trabalho.

O ambiente de trabalho pode causar raiva?
– O ambiente de trabalho contém os gatilhos que podem acionar a raiva. Os principais são injustiça, falta de comprometimento de terceiros, falsidade, mentira, traição, falta de reconhecimento e ser deixado de lado, ou seja, não ser envolvido e não receber as informações a respeito do seu próprio trabalho.

Como uma raiva pode ser construtiva? Quando ela pode ser válida?
– A raiva tem um objetivo que é proteger-nos contra ameaças e exposições do nosso eu. Dessa forma, a raiva aparece quando regras internas, determinadas pelo processo de socialização, são contrariadas. Afinal, temos necessidades, desejos e ambições e sentimos raiva quando nossas expectativas não são atendidas.

A raiva é válida se levar o profissional a mudar os rumos de uma situação improdutiva, propiciando-lhe bem estar pela solução dada, e sem prejuízo
aos colegas e empresa.

O trabalhador pode falar com a empresa que está com raiva e dificuldade de lidar com ela?
– Ainda existe um mito que expressar raiva no ambiente corporativo é arriscado, pois podemos adquirir uma reputação negativa.

Dessa forma, as pessoas sentem-se inseguras em sentir e manifestar a raiva, pois sua expressão pode comprometer a avaliação de sua performance profissional e, consequentemente, seus objetivos de progresso na carreira.

Isso é um engano porque, em algum momento, essa raiva contida vai sair e provavelmente de forma errada, ou através de uma explosão, ou através de uma doença. Isso é que pega mal. Dessa forma, sugiro aos profissionais aprenderem a expressá-la produtivamente. Esta é a proposta do livro Tenha Calma!

Quando é melhor sair de um ambiente estressante, que causa raiva?
– Cada pessoa tem seus limites e razões para suportar uma situação estressante. Porém, tenho orientado as pessoas a fazerem uma análise de custos e benefícios e decidir conscientemente qual é a melhor escolha.

De qualquer forma, sugiro que nunca saiam de uma situação com a autoestima baixa.É preciso encarar a raiva de frente, resolvê-la, para depois partir para uma nova experiência.

Fonte: Jornal do Commercio - Caderno JC & CIA. Carreiras - 19, 20 e 21 de março de 2009


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