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Com os ambientes corporativos cada vez mais competitivos e
a demanda por produtividade cada vez maior, muitos profissionais
focam na produtividade
da companhia onde trabalham e deixam sua saúde emocional em segundo
plano. Um rompante de raiva de um executivo pode destruir um trabalho
que levou meses para ser desenvolvido, e também os relacionamento
com os colegas. A autora do livro " Tenha Calma! Como lidar com
a raiva no trabalho e transformá-la em resultados positivos",
Vera Martins, em entrevista ao Jornal do Commercio, diagnostica a cadeia
que desemboca na raiva e sugere saídas para o mal. A publicação
foi lançada em dezembro pela editora Campus-Elsevier.
JORNAL DO
COMMERCIO – O que a senhora quer dizer com raiva? É irritação
constante ou aquele estouro, o rompante?
VERA MARTINS – A
raiva é a lembrança de ter sido ferido,é uma
resposta a um estado de desprazer. A raiva é uma reação
natural à frustração e a primeira resposta
a uma perda caracterizada como algum tipo de dor física
ou emocional. É naturalmente inclinada a ser expressa, não
sendo um sentimento reflexivo, como a ansiedade, nem uma sensação
passiva e voltada para si mesmo, como a mágoa. A raiva é voltada
para a ação, seja a retaliação ou a
autodefesa. É uma energia que se move dos pés ao
topo da cabeça.
É uma
emoção contagiosa?
– A raiva pode contagiar um ambiente de trabalho, principalmente aquele,
onde os profissionais não se sentem importantes, competentes e queridos;
não se sentem livres para expressar seus sentimentos, suas opiniões,
suas necessidades e não são reconhecidos e levados a sério;
ao contrário, se sentem ameaçados de perder o emprego e da concorrência
desleal.
Nesse ambiente, a raiva se torna um vírus que permeia os processos
e os relacionamentos humanos, contaminando principalmente os profissionais
fragilizados e vulneráveis. São pessoas não assertivas,
que se comportam de forma passiva, engolindo sapos ou reagindo com agressividade,
sarcasmos e ironia. Sabemos que a raiva, normalmente, acompanha esses
sentimentos.
A raiva é diferente
para pequenos, médios e grandes ambientes de trabalho?
Em ambientes menores é mais fácil ser afetado
por uma pessoa raivosa?
– Provavelmente é mais fácil ser afetado
pela raiva em ambientes menores porque a falta de privacidade leva
o profissional a sentir seu eumais exposto e invadido, e isso,
por si mesmo, pode ser um gatilho da raiva. Assim como o medo surge
da sensação da ameaça, a tristeza da sensação
da perda, a raiva origina-se da sensação de invasão
e quebra das regras internas.
É possível
transformar esse sentimento? Como? De onde vem ele?
– É possível sim transformar a raiva
destrutiva em produtiva, isto porque a raiva é energia e
tem a força de transformar e mudar uma situação
inadequada para uma situação mais bem resolvida,
impulsionando as pessoas a repensarem novas alternativas de comportamento.
Como expressá-la positivamente? É melhor colocar para fora,
sem agressividade e de preferência não reprimir, pois a
raiva reprimida nutre sentimentos ruins no ambiente, proliferando, por
exemplo, a mágoa, sentimento que fortalece o desejo da vingança
e retaliação.
O importante a destacaré que a expressão da raiva deve
ser responsável e madura, ou seja, a raiva deve se originar de
um motivo justo e deve ser expressa com a intenção de construir
relacionamentos saudáveis. Só assim será possível
transformar a raiva em resultado positivo no trabalho.
O ambiente
de trabalho pode causar raiva?
– O ambiente de trabalho contém os gatilhos que podem acionar a
raiva. Os principais são injustiça, falta de comprometimento de
terceiros, falsidade, mentira, traição, falta de reconhecimento
e ser deixado de lado, ou seja, não ser envolvido e não receber
as informações a respeito do seu próprio trabalho.
Como uma
raiva pode ser construtiva? Quando ela pode ser válida?
– A raiva tem um objetivo que é proteger-nos contra ameaças
e exposições do nosso eu. Dessa forma, a raiva aparece quando regras
internas, determinadas pelo processo de socialização, são
contrariadas. Afinal, temos necessidades, desejos e ambições e
sentimos raiva quando nossas expectativas não são atendidas.
A raiva é válida se levar o profissional a mudar os rumos
de uma situação improdutiva, propiciando-lhe bem estar
pela solução dada, e sem prejuízo
aos colegas e empresa.
O trabalhador
pode falar com a empresa que está com raiva e dificuldade
de lidar com ela?
– Ainda existe um mito que expressar raiva no ambiente corporativo é arriscado,
pois podemos adquirir uma reputação negativa.
Dessa forma, as pessoas sentem-se inseguras em sentir e manifestar a
raiva, pois sua expressão pode comprometer a avaliação
de sua performance profissional e, consequentemente, seus objetivos de
progresso na carreira.
Isso é um engano porque, em algum momento, essa raiva contida
vai sair e provavelmente de forma errada, ou através de uma explosão,
ou através de uma doença. Isso é que pega mal. Dessa
forma, sugiro aos profissionais aprenderem a expressá-la produtivamente.
Esta é a proposta do livro Tenha Calma!
Quando é melhor
sair de um ambiente estressante, que causa raiva?
– Cada pessoa tem seus limites e razões para suportar uma situação
estressante. Porém, tenho orientado as pessoas a fazerem uma análise
de custos e benefícios e decidir conscientemente qual é a melhor
escolha.
De qualquer forma, sugiro que nunca saiam de uma situação
com a autoestima baixa.É preciso encarar a raiva de frente, resolvê-la,
para depois partir para uma nova experiência.
Fonte: Jornal do Commercio
- Caderno JC & CIA. Carreiras - 19, 20
e 21 de março de 2009
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