Contudo,
já há nessa extensa lista ferramentas mais focadas na atitude
individual, como a capacidade de ser assertivo. Uma atitude que
faz muita diferença tanto na dimensão profissional quanto na
pessoal. A necessidade de assertividade é tão latente que os
cursos e workshops se multiplicaram no mercado.
Segundo o psiquiatra
Dácio Bonoldi Dutra, da consultoria Grupo Ser, que ministra cursos
sobre o tema, o conceito de assertividade começou a ser usado
nas organizações de carona entre as competências importantes
para os líderes. "Quando, no início da década de 90, os sistemas
de gestão por competências começaram a entrar nas grandes organizações
americanas e definiram quais seriam as competências fundamentais
para os líderes, a assertividade ganhou muito destaque", explica
Dácio.
Mas, o que é ser
assertivo?
De acordo com a pedagoga
Vera Lúcia Franco Martins, da Assertiva Consultores, empresa
que ministra o workshop "DESENVOLVENDO O COMPORTAMENTO ASSERTIVO",
significa afirmativa ou asserção naquilo que se acredita verdadeiro.
"Nas relações interpessoais,
assertividade se refere a uma amplitude positiva de respostas
e de soluções ganha-ganha, nas quais todos os envolvidos sentem-se
confortáveis e comprometidos com os resultados a serem alcançados",
diz Vera Lúcia, especialista em treinamento e desenvolvimento
de pessoas no ambiente organizacional.
Segundo Dácio, uma
definição bem aceita é a que diz que a assertividade é a habilidade
de expressar idéias, opiniões, sentimentos, ao mesmo tempo em
que há uma afirmação de direitos, sem violar os direitos dos
demais. O comportamento assertivo é o que torna a pessoa capaz
de agir em seu próprio interesse, a se afirmar sem ansiedade
indevida, a expressar sentimentos sinceros sem constrangimento,
ou a exercitar seus próprios direitos sem negar os alheios. Dácio,
porém, prefere uma definição simplificada: "Assertividade é a
capacidade de concretizar desejos, incluindo os desejos dos outros",
resume.
Para elucidar, Vera
dá um exemplo ao avesso, isto é, o que não é assertividade. Imagine
a seguinte cena: você chegou cansado em casa, toca o telefone. É um
amigo convidando-o para ir a um bar. Sua vontade é dizer não,
mas, talvez porque não queira magoá-lo, concorda com o convite.
Você acaba de dizer sim ao amigo e não para você mesmo. Acabou
de perder a chance de ser assertivo.
"Você é assertivo
quando diz "não" quando quer dizer "não" e diz "sim" quando quer
dizer "sim", para uma situação ou pessoa", explica ela.
E é aqui onde se
dá o encontro do profissional e do pessoal. "Assertividade é afirmar
o seu eu, e, é claro, afirmar sua auto-estima", diz Vera. Em
uma tradução bem livre é "fazer a coisa certa". E aqui a assertividade
ganha contornos complexos, pois o comportamento assertivo exige
várias outras habilidades. Para ser assertivo é preciso ser flexível,
empático, bom ouvinte, transparente, objetivo, de bem com a vida...
Por que é importante?
A partir deste desdobramento,
fica fácil entender a urgência da assertividade nos dias de hoje.
Em um cenário de incertezas aliado à complexidade da diversidade
fica evidente a importância que hoje se dá às escolhas com base
no discernimento e no equilíbrio de interesses. No trabalho,
por exemplo, a importância dessa habilidade é incontornável. "Para
atender as demandas de um mercado competitivo e ágil, um profissional
deve ter as características do comportamento assertivo. O comportamento
assertivo constrói uma comunicação interna saudável dentro de
uma empresa. Saudável porque as pessoas passam a encarar os problemas
do cotidiano com naturalidade e os resolvem de forma efetiva.
As informações fluem com transparência e na quantidade e na qualidade
necessárias", explica Vera.
Na vida pessoal,
a assertividade traz bem-estar porque a pessoa sente que tem
as rédeas da própria vida em suas mãos. Ela está no controle.
Sem contar os efeitos secundários. "A assertividade diminui aquela
necessidade de ter a aprovação obrigatória de outras pessoas
sobre seus atos. Com isso, a pessoa se torna mais autoconfiante
e com sua auto-estima equilibrada. Você já se viu numa situação
na qual consegue tomar uma decisão difícil e, em seguida, se
sente aliviado e feliz com você mesmo? Se, para isso, não agrediu
o outro por palavras ou ações, você foi assertivo.
Onde está a dificuldade?
Ok. Todos sabem que
a transparência é a melhor saída, que a flexibilidade é muito
positiva, que a atitude verdadeira é a mais correta. Enfim, que
o correto é dizer "sim" quando se quer dizer "sim" e dizer "não" quando
se quer dizer "não". Então, por que as pessoas não são assertivas? "Costumo
dizer nos workshops e palestras que venho desenvolvendo nas empresas
e faculdades que a falta de assertividade é originada pelo medo
da perda. Pode ser o medo de perder o emprego, de perder o amor
do outro, de ser humilhado, enfim, medo da exclusão", diz Vera.
"O grau do risco
da perda é diretamente proporcional ao grau de auto-estima da
pessoa. Assim, se você não está técnica e psicologicamente preparado
para encarar uma situação problema, torna-se um forte candidato
a perder sua assertividade e desenvolver mecanismos de defesa:
de ataque ou fuga do problema", completa a pedagoga.
Conhecer-se:
fonte do assertivo
A assertividade está intimamente
ligada ao autoconhecimento. "Se você não tem o costume de se
perguntar o que quer, por que quer, por que isso é realmente
importante, você não terá certeza se deve ser firme e assertivo
sobre determinado assunto", esclarece Dácio.
Se você não sabe
o que quer corre o risco de adotar o comportamento passivo. Mas,
se você sabe o que quer e não tem coragem de fazer valer o desejo
que percebe em si, amargando uma raiva que se transforma em ironias
e sarcasmos, você adota o comportamento passivo-agressivo.
A auto-estima é a
base do comportamento assertivo e é uma área a qual todos precisam
cuidar muito. De acordo com Dácio, poucos de nós experimentam
uma elevada proporção de experiências positivas na infância e,
como resultado, há poucas pessoas com auto-estima elevada. Muitas
têm auto-estima média. Estima-se que entre 85% e 90% das pessoas
precisam de algum tipo de aconselhamento ou psicoterapia para
corrigir comportamentos destrutivos internos e externos.
"A pessoa com auto-estima
de média a baixa é altamente dependente e demonstra pouca iniciativa
e autonomia, porque os riscos da desaprovação social são grandes
demais para serem enfrentados", afirma Dácio.
Negocie a
sua verdade
A técnica da assertividade
aposta na mudança do comportamento passivo ou agressivo para
a adoção de um comportamento maduro e honesto. Este é um ponto
que exige esclarecimentos. Quando se fala em relacionamento humano,
a forma como se processam as percepções é muito importante, tanto
que existem processos terapêuticos que trabalham basicamente
a mudança de percepção. "É através da percepção que avaliamos
coisas e pessoas que estão a nossa volta e damos os significados
que satisfaçam aos nossos papéis e a nossa identidade. Por causa
da nossa percepção, interagimos, não com as pessoas ou objetos,
mas com a imagem que fazemos deles. Por isso a empatia (colocar-se
no lugar do outro e enxergar a situação com os olhos do outro) é reconhecida
como uma técnica de compreensão mútua que leva à cooperação",
detalha Vera.
Outro dado importante é que
a percepção humana é dinâmica, as pessoas não registram tudo
passivamente, elas agem, reagem. Vera dá o exemplo da Escada
da Inferência, que explica bem a característica dinâmica da percepção.
Essa teoria mostra que adotamos crenças baseadas em conclusões
inferidas do que observamos e nem sempre comprovadas, acrescidas
pela nossa experiência passada.
Dessa forma, a capacidade
de alcançar os resultados fica corroída pelas crenças que selecionamos
como verdadeiras.
Quer exemplos de
como nós acrescentamos dados internos em situações reais? Concluir
que fulano não gosta de você porque outro dia ele não o cumprimentou
no corredor da empresa; concluir que fulano acha você incompetente
porque, quando você apresentava sua idéia na reunião, ele olhou
para o relógio e sugeriu que você falasse em outro dia; acreditar
que seu namorado (a) não está gostando de você só porque ele
(a) recusou um convite para jantar, sem dar maiores explicações,
são alguns exemplos citados por Vera.
"A escada da inferência é uma
trilha mental que pode nos levar a crenças mal orientadas, condicionando-nos
a assumir comportamentos passivos ou agressivos. Dentro de uma
empresa, é comum as pessoas fazerem inferências umas em relação às
outras, e as interações se tornam contaminadas e problemáticas,
com efeitos negativos nos resultados do negócio", alerta ela.
Processo natural
Certo. Todos têm
consciência disso. Até porque a escada da inferência é inevitável, é inerente à condição
humana. Não conseguimos viver sem acrescentar significados ou
tirar conclusões sobre coisas, pessoas e situações... Daí a importância
da atitude assertiva no sentido de usar a escada da inferência
adequadamente. Como? Tornando nosso pensamento mais transparente
aos outros; verificando os dados observáveis, nos quais se baseiam
nossas afirmações; checando se os outros estão vendo os mesmos
dados e - algo muito importante - tendo abertura para trocar
feedback sempre que for necessário. "Estamos falando do processo
para desenvolver a flexibilidade, característica primordial na
postura assertiva", conclui Vera.
Temos de estar sempre
checando se as nossas crenças e valores estão em sintonia com
a realidade. Como? Afugente qualquer fumaça de dúvida. Achou
que o seu chefe teve um comportamento ambíguo? Coloque tudo em
pratos limpos. Sentiu que foi mal interpretado e causou mal-estar
na equipe? Sente para uma conversa franca e esclareça. Achou
que o seu cliente sentiu-se incomodado com uma nova diretriz
da empresa? Posicione-se e escute-o. Sentiu que não passou uma
mensagem como deveria? Peça licença e volte ao assunto.
Remar contra
a maré
Muito bem. A partir
daqui, você percebeu que o comportamento assertivo é mais trabalhoso
do que você imaginava, uma vez que ele está diretamente ligado
a crenças e valores. E estes são formados ao longo da nossa vida
(originados e influenciados por experiências passadas com a família,
na escola, através da cultura, religião, mídia etc.) e às vezes
mudá-los de uma hora para outra é muito difícil. Realmente, a
mudança rápida é muito difícil. Mudança leva tempo. É um processo
e é lento, mas perfeitamente possível.
O começo passa inevitavelmente
por uma revisão dessas crenças e valores que você incorporou
há muito tempo. E um detalhe: este aprendizado, às vezes, não é detectado
a olho nu, pois vem muito bem camuflado. Quer um exemplo? Quando
você era criança, ouvia a seguinte mensagem: "Seja gentil com
as pessoas no seu aniversário. Quando ganhar um presente, diga
obrigado e gostei muito, mesmo que não tenha gostado". Ou: "Diga
a sra. Fulana que ela está bonita, mesmo que ela esteja horrível".
Pronto! Essa orientação
para agradar o outro (às vezes recorrendo à mentira e à auto
negação) é um dos inimigos do comportamento assertivo, pois gera
o comportamento passivo (veja quadro).
O comportamento agressivo
(veja quadro) também é ensinado pela sociedade e pela cultura.
Recebemos ensinamentos que propõem a resolução dos conflitos
com agressividade. Alguns exemplos: "o mundo é dos espertos", "a
melhor defesa é o ataque", "bata antes de apanhar", "nunca leve
desaforos para casa"...
Como você reage
nos conflitos?
E aqui uma constatação óbvia
sobre a natureza da assertividade: quanto mais difícil for a
situação, o conflito, mais difícil ser assertivo. Portanto, são
as situações limites que testam a capacidade ou a ausência da
assertividade. Vera explica que diante de uma situação pode-se
adotar quatro estilos de comportamento. Vamos imaginar a seguinte
situação:
Hoje é sexta-feira
e você acaba de chegar ao seu trabalho. Seu dia promete ser agitado.
Tem muito trabalho para fazer e umas pendências para resolver.
Você combinou com
seus amigos passar o final de semana na praia. Tudo está combinado,
sairão hoje, logo depois do trabalho, direto para a estrada.
Você não pode perder um minuto sequer. Seu chefe, que tem um
estilo autoritário, chega até você e determina que resolva um
problema, o qual vai tomar uma hora do seu tempo. O chefe nem
se preocupa se isso vai atrapalhar seu tempo ou não. Você sabe
que esse problema aconteceu pela falta de planejamento do chefe.
Aliás, isso vem acontecendo com certa freqüência e você está ficando
com excesso de trabalho. Como você age nessa situação?
COMPORTAMENTOS
A- Com voz hesitante,
sem olhar direto para o rosto do chefe, você diz que vai ser
difícil, pois está sem tempo. O chefe insiste e você cede facilmente,
ou então diz a ele que fará um esforço, mesmo que isso atrase
um pouco sua viagem, ou você nem discute com o chefe, diz que
sim, e depois verá o que fazer com as outras atividades. Passivo
B- Você olha para
o chão, suspira impacientemente, enquanto ele fala. Sua vontade é virar-lhe
as costas, mas você precisa do emprego. Você é obrigado a concordar
em fazer o que ele determinou. Mais uma vez terá de concordar.
De alguma forma você vai se vingar, por exemplo, faltando um
dia no qual ele precise muito de você. E mais, você trará atestado
médico. Agressivo-Passivo
C- Você diz ao chefe
que o erro não é seu e cabe a quem o cometeu corrigi-lo, ou então
você concorda em fazê-lo desde que o chefe o libere para sair
uma hora mais cedo do trabalhona segunda-feira. - Agressivo
D- Você olha diretamente
para o chefe e diz que seu tempo está totalmente ocupado e, em
seguida, procura saber dele qual é a prioridade da solicitação
feita, comparando-a com os outros trabalhos que você tem a fazer
no dia. Finalmente define com o chefe a nova organização das
prioridades do seu trabalho, para, então, decidirem se será você a
pessoa que atenderá a nova demanda. Assertivo
Confira a definição
dada pelos especialistas sobre os quatro tipos de comportamento.
Agressivo: é caracterizado
pela necessidade de dominar o outro. Uma pessoa quando opta pela
agressividade é capaz de passar por cima do outro para atingir
seus objetivos. Sente-se superior e, por isso, menospreza, deprecia
e desrespeita os direitos do outro. É fácil identificá-lo. A
pessoa mostra-se autoritária, intolerante, dona da verdade, fala
alto, interrompe o outro, tem dificuldade de ouvir e é irônica.
Passivo: Seu
principal objetivo é não desagradar o outro. Busca a harmonia
e foge do conflito, mesmo à custa de seus próprios interesses.
Tende a subestimar os seus direitos e sentimentos e superestimar
os dos outros. Tem dificuldade de dizer não, o que leva a que
se aproveitem dele. É comum usar expressões do tipo: "Não quero
incomodar", "Não vou tomar muito seu tempo", "O que for melhor
para você é bom para mim". Dificilmente dá opiniões e concorda
facilmente com a opinião do outro. O passivo espera que as pessoas
compreendam o que ele deseja, tem discurso confuso, atitude defensiva,
postura encolhida, inquieto. Culpa-se de tudo, odeia o assunto,
evita a abordagem direta, freqüentemente solicita aprovação,
cede facilmente, gera simpatia, faz com que as pessoas se sintam
culpadas em pedir-lhe as coisas etc.
Passivo-agressivo: De
acordo com Dácio, este é um comportamento misto, com elementos
de agressividade e passividade. Ansioso em acertar contas sem
correr riscos de confronto. "É um comportamento freqüentemente
encontrado em pessoas que querem se afirmar sem terem poder para
tanto. Quem tem este estilo de comportamento utiliza o mínimo
de contato visual possível, mas olha para a frente mais que para
o chão. Lacônico, suspira de impaciência. Exasperado, usa expressões
como "não posso acreditar no que estou ouvindo".Postura fechada.
Dá respostas indiretas, faz alusões sarcásticas, tem senso de
humor irritante. Faz "acerto de contas" indiretamente", descreve
Dácio.
Caracteriza-se, principalmente,
pelo seu jeito manipulador. É superficial nas suas relações interpessoais. "Não
se envolve com as pessoas nem com as situações. Tende a desvalorizar
a inteligência do outro, já que pensa que o outro não percebe
seu comportamento manipulador. É pouco transparente em sua comunicação. É fácil
identificá-lo, normalmente ele se apresenta com um humor sarcástico,
faz chantagem emocional, faz os outros se sentirem culpados,
distorce as palavras do outro e fala por indiretas", explica
Vera.
Assertivo: Este é o
comportamento capaz de construir relações eficazes e de estabelecer
uma atitude negociadora em situações de conflito. "O detentor
deste comportamento é transparente na linguagem e na expressão
de idéias e sentimentos. Por outro lado, sabe ouvir e ser empático
com o outro. É muito fácil lidar com ele porque exprime, sem
constrangimento, seus sentimentos positivos e negativos, ouve
as críticas e negocia sem ataque pessoal. Ele diz não sem se
sentir culpado e, o que é importante, aceita o não do outro",
esclarece Vera.
"Ansioso por defender
seus direitos mas, ao mesmo tempo, capaz de aceitar que as outras
pessoas também tenham os seus. Contato visual suficiente para
dar a entender que está sendo sincero. Tom de voz moderado, neutro.
Postura comedida e segura. Expressão corporal condizente com
suas palavras. Ouve bastante, procura entender. Trata as pessoas
com respeito. Aceita acordos, soluções. Aceita declarar ou explicar
suas intenções. Vai direto ao ponto, sem ser áspero. Insiste
na busca de seu objetivo", complementa Dácio.
O perigo da comunicação contaminada
Aproximando o olhar,
pode-se dizer que a comunicação é o oxigênio das relações interpessoais
e dentro das organizações estes comportamentos impactam diretamente
na qualidade da comunicação. "Comparando uma empresa (e qualquer
outro núcleo) ao organismo humano, a comunicação interna é o
sangue que corre pelas veias e dá vida aos seus departamentos.
Se houver algum ponto entupido, o organismo corre o risco de
doenças e morte", compara Vera.
"Pessoas agressivas
perdem a confiança dos outros, ficam isoladas e estimulam respostas
agressivas. Pessoas passivas ficam ressentidas devido às agressões
que sofrem constantemente, ficam frustradas porque não são ouvidas,
não usam sua inteligência em prol da empresa, além de não se
comunicarem adequadamente com os colegas", afirma Vera.
E aqui um alerta
da especialista: se as empresas tivessem uma medida dos custos
e prejuízos provenientes dos comportamentos agressivos e passivos,
rapidamente adotariam o comportamento assertivo como competência
mínima e primordial de todos os seus colaboradores.
E pior: o comportamento
não assertivo é cíclico, tende a se propagar e se fortalecer
cada vez mais. Se você tem um desempenho negativo, registra interiormente
e isto contribui para uma baixa auto-estima. A baixa auto-estima
gera um comportamento inadequado, que gera um feedback negativo,
que gera uma autodepreciação e novamente o comportamento inadequado
(veja ilustração)... Não acaba nunca!
Como eu saio
da roda?
O primeiro passo é mudar
a imagem que você tem que si mesmo. Como? Encarando suas dificuldades
com mais tolerância e naturalidade. "Procurar tornar a voz interna
mais amável e tolerante é a primeira medida para cultivar uma
boa auto-estima", diz Vera.
A partir daí, comece
o trabalho para alcançar o comportamento assertivo. O início
do comportamento assertivo, claro, começa pela linguagem. "A
comunicação assertiva inicia-se pelo uso adequado das palavras.
Se você construir frases para acusar e julgar o outro, já está fadado
a criar conflitos desnecessários", ressalta Vera. Por exemplo,
há um indivíduo que fala alto e incomoda. Ao invés de abordá-lo
com "você atrapalha todas as pessoas da sala quando fala alto",
troque pela afirmação assertiva: "Eu me sinto incomodada quando
você fala alto, porque não consigo me concentrar no trabalho".
Mas, atenção, a assertividade
não admite maquiagem. Para funcionar, essa mudança de atitude
precisa vir acompanhada sempre de tom de voz, postura corporal,
expressão facial e movimentos do corpo coerentes. "Uma frase
assertiva pode soar como agressiva se for dita em tom de voz
alto, com expressão facial de raiva e olhar penetrante e intimidador",
alerta Vera.
Preste atenção para "transformar-se" em
assertivo. O tom de voz é seguro, confiante, uniforme, modulado,
descontraído e calmo; a postura corporal é descontraída, bem
posicionada, ereta e ligeiramente inclinada para a frente; expressão
facial direta, autêntica, risonha, ar feliz, olhar confiante,
tranqüilo, intermitente e, finalmente, as mãos e braços devem
abrigar movimentos abertos, informais, espontâneos e despreocupados
(veja mais informações na edição da VENCER! n° 37, setembro,
2002, no Vencendo na Comunicação "Aprenda a gesticular e torne
suas apresentações mais eficientes", do mestre Reinaldo Polito)
Não vou agüentar!
Este começo parece
fácil. Vigiamos as nossas emoções, lembramos que fizemos a opção
pela assertividade... O difícil é quando somos atacados pela
agressivo ou somos confundidos e postos em causa pelo passivo.
Então, quando o termômetro subir, conte até 100... Vera explica
que nesta questão há uma premissa: assertividade gera assertividade. "Ao
assumir a postura assertiva, você estimula o passivo a se auto-afirmar
e determina ao agressivo os seus limites, levando tanto um quanto
o outro aos parâmetros ideais de manifestação da individualidade
e de socialização. Ambos são fatores de equilíbrio da assertividade",afirma
a especialista.
Mente aberta, coração sereno
Será difícil no começo,
mas com alguns meses de treino a assertividade virá normalmente.
Vera conta que em seus workshops promove várias vivências em
que os participantes lidam com conflitos com pessoas que apresentam
qualquer um dos quatro comportamentos: "Dependendo da situação,
o assertivo será mais empático ou mais afirmativo, influenciará mais
ou permitirá que o outro o influencie. O importante é ser flexível,
ouvir quando for necessário e dar limites quando o outro invadir
seu espaço".
De nada serve, porém,
você agir como um mamulengo. É preciso um trabalho extra de muita
reflexão. "Comece pela análise daquela sua vozinha interna, que
todos temos, e entenda a essência das mensagens da mesma; observe
seu próprio comportamento e identifique as situações nas quais
tem sido passivo, agressivo e assertivo; analise uma situação
específica de não assertividade; observe alguém que saiba lidar
assertivamente com uma situação similar, treine mentalmente,
pratique. Seja persistente e procure o apoio de alguém para obter
feedback a respeito. O fato é que a sensação de auto-estima e
auto-respeito é tão gratificante que a mudança vai acontecendo
e a ansiedade e o sentimento de culpa, presentes nas relações
passivas e agressivas, vão desaparecendo de forma gradativa e
progressiva", reforça Vera.
E por último, mas
não menos pior: você terá de se preparar para aqueles que não
leram esta reportagem. Ao adotar o comportamento assertivo, você pode,
inicialmente, provocar diversas reações nas pessoas com quem
você convive. Por exemplo: hostilidade, mágoa, chantagem emocional,
lamento, pedidos de desculpas e grau de humildade excessiva.
O adequado é manter-se na postura assertiva, sem se deixar ser
fisgado.
"A escolha é a palavra
chave da assertividade. Ser assertivo é sempre, em qualquer situação,
escolher o que é melhor fazer, o momento adequado e o local certo
- com cada pessoa do seu convívio, respeitando a si e ao outro.
Lembre-se, aquilo que não agregar valor a você e nem ao outro é melhor
não dizer e não fazer. Boas escolhas para todos!", finaliza Vera.
Um exercício
rápido sobre sua Assertividade
Faça o exercício
proposto pelo psiquiatra Dácio Bonoldi Dutra e realize uma auto-reflexão
sobre o seu comportamento.
Procure imaginar
como você se sentiria nas situações propostas e responda, numa
escala de 0 a 10, onde 0 é totalmente confortável, e 10, totalmente
desconfortável.
- Pedir um favor
a alguém
- Pedir ajuda
- Dizer a alguém de quem gosta que ele/ela fez algo que incomodou
- Admitir seu desconhecimento sobre um assunto em discussão
- Perguntar a alguém se você o ofendeu
- Discutir com uma pessoa que criticou seu comportamento
- Expressar opinião diferente da pessoa com quem conversa
- Criticar um amigo
- Criticar o cônjuge
- Expressar sua opinião com alguém que você não conhece muito
- Contradizer alguém mesmo sabendo que vai decepcioná-lo
- Cumprimentar alguém por sua competência ou criatividade
Se você totalizar
mais de 59 pontos, está com dificuldade de lidar com as situações
e seria importante se você verificasse de que maneiras essas
dificuldades estão interferindo em sua vida.
"Assertividade é a
capacidade de concretizar desejos incluindo os desejos dos outros".
Dácio Bonoldi Dutra
"O comportamento
agressivo - um inimigo poderoso da assertividade - também é ensinado
pela sociedade. Recebemos ensinamentos que propõem a resolução
dos conflitos com agressividade, como por exemplo: "o mundo é dos
espertos", "nunca leve desaforos para casa". Vera Martins |