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Como evitar fofocas
entrevista à Revista Supermercado Moderno, maio/04

1. Quais são os fatores que podem motivar o aparecimento da fofoca dentro da empresa?

Em primeiro lugar temos que entender o que é fofoca. É a intriga, é a distorção premeditada de uma informação. Para alguns é um divertimento sem importância e para outros, que se sentem vítimas, é uma forma de vingança, promovendo o mal para o seu perseguidor.

O fato é que a vontade de passar uma informação para frente, de acordo com sua percepção, faz parte da natureza humana. Daí vem o ditado: Quem conta um conto aumento um ponto.

Os fatores que motivam o aparecimento da fofoca, normalmente são:

Estilo de gestão centralizada que usa um sistema de comunicação de uma via, ou seja, a informação desce na pirâmide hierárquica como ordem e não existe o retorno do receptor
Falta de transparência na comunicação
Falta de confiança e respeito entre as pessoas.
A informação não flui livremente, de forma aberta e honesta.
Os conflitos não são vistos com naturalidade.
O poder não é compartilhado entre todos.
O clima é ameaçador e as pessoas não se sentem à vontade.
As pessoas não colaboram entre si.
As pessoas não são envolvidas nas decisões do seu trabalho.

A pergunta é: Por que algumas pessoas fazem fofocas dentro da mesma empresa?

A resposta é simples: Uma pessoa, ao fazer fofoca, normalmente está em conflito consigo mesma. Pode estar se sentindo reprimida na expressão dos seus sentimentos, idéias e necessidades. Mas, por algum motivo seu ou proveniente do ambiente do trabalho, não tem a coragem de enfrentar a situação conflitante, necessitando assim de uma válvula de escape. Nesse caso, normalmente, a pessoa assume uma postura chamada passiva-agressiva.
O lado passivo caracteriza-se pela ausência de reação perante a situação conflitante. A passividade manifesta-se principalmente pelo medo da perda: Medo de perder o emprego, medo de ser humilhado e desvalorizado.
Mas ao assumir a passividade, o funcionário sente-se desvalorizado e perde a auto-confiança.
O funcionário, inconformado pela repressão contínua de seus sentimentos, idéias e necessidades, assume o seu lado agressivo, manifestando suas insatisfações com a empresa, superiores e colegas, por meio da fofoca.
A fofoca é uma válvula de escape e um sinalizador de que a comunicação interna da empresa está com problemas de saúde.

2. Há um perfil de empresa e de pessoa mais suscetível a virar alvo da fofoca?

Sim. As empresas que adotam um sistema de comunicação interna de uma via é a mais suscetível pois desenvolvem funcionários passivos-agressivos, um mal que corrói o clima motivacional da empresa.

3. Quais as conseqüências da fofoca para a empresa e para o funcionário que é alvo da fofoca no ambiente de trabalho?

Podemos comparar a empresa a um organismo vivo que, como tal precisa fazer o sangue correr em suas veias, Esse sangue dá vida à empresa na medida que as pessoas que nela trabalham, conversam entre si, dão e buscam informações uns com os outros, tomam decisões, enfim produzem o negócio. Essas pessoas estão distribuídas em diversas áreas, e elas precisam interagir e se comunicar.
Quando se fala em comunicação, um ponto importante é a interação entre as pessoas. Comunicação é via de mão dupla. E só será plena e efetiva quando gerar resultado, ou seja, mudança de comportamento. Você fala, alguém escuta, processa e responde. Você, então, escuta, reformula, repensa e reposiciona, adequando a resposta à necessidade do outro. É o processo de comunicação que ocorre por meio da interação.

Portanto, quando esse sangue, que é a informação construída pelas pessoas, está contaminado pelo vírus da fofoca, as veias, que são os processos de trabalho, ficam entupidas e o resultado é a trombose. O paciente (empresa) tem quer ser tratado para não sofrer falência de todos os órgãos. Às vezes, morre.

4. Como deve proceder o funcionário que é alvo da fofoca?

Ao ser alvo da fofoca, uma pessoa se sente agredido e invadido em seus direitos.
Nessa situação, muitas pessoas não reagem e se sentem infelizes e com a auto-estima baixa. Outras pessoas reagem com alta agressividade, expondo-se através de brigas com o fofoqueiro. Algumas outras reagem da mesma forma que o fofoqueiro, ou seja, também fazendo fofocas. Podemos perceber que essas alternativas não resolvem o problema, ao contrário, apenas aumenta-o.

O mais adequado é assumir uma postura construtiva e madura, de auto-respeito e auto-confiança. A primeira atitude é avaliar o impacto da fofoca e concluir: Vale a pena ou não confrontar a pessoa que fez a fofoca?
Se concluir que é inevitável o confronto, faça o seguinte:

1o) Identifique claramente o problema e qual é o comportamento inaceitável do outro para não haver desvios de rota.
2o) Use a técnica do Eu-afirmação em quatro passos:
passo 1 – Comece com a palavra EU
passo 2 – Expresse seu sentimento diretamente
passo 3 – Fale o comportamento do outro que causou o conflito
passo 4 – Expresse a conseqüência ou modificação que você deseja e o porquê.
3o) Use a Escuta ativa para ouvir e entender o que realmente o outro está falando.

5. Como a empresa pode detectar a existência ou não da fofoca?

Acredito que a empresa tem que estar mais preocupada em como não desenvolver um clima fofoqueiro. Mas ao detectar a fofoca, a recomendação é Ter a coragem de acabar com a fofoca dando a informação correta, sem a necessidade de punição.

6. Você poderia dar dicas para o funcionário e para a empresa de como escapar dos problemas gerados pela fofoca ou como evitar ser alvo delas?

Para a empresa

A empresa deve desenvolver com seus funcionários uma relação de parceria através de uma comunicação de duas vias, na qual as pessoas não se sintam ameaçadas ao expressarem suas idéias, sentimentos e necessidades e sim ouvidas.
Para que isso aconteça, a empresa precisa desenvolver um clima saudável com quatro ingredientes:

•Um clima de cooperação
A cooperação é uma coordenação de pontos de vista ou ações de diferentes pessoas, ou seja, cada membro do time é capaz de compreender os pontos de vista dos outros e adaptar sua própria ação ou opinião à deles. Isto só é possível se houver empatia.

•Um clima de empatia
Empatia é a forma mais profunda de se compreender uma pessoa.
Significa colocar-se no lugar do outro, buscando sentir o que ele está sentindo naquele momento, vendo a situação com os olhos dele.
Além da curiosidade, a pessoa pode demonstrar empatia, fazendo perguntas para descobrir a opinião do outro, repetir os pontos principais sobre o que ele fala, e principalmente, reconhecer os sentimentos do outro.

•Um clima de confiança e responsabilidade
Confiança é algo que se constrói no tempo. Eu confio em alguém quando tenho certeza que esse alguém fará por mim somente coisas que não vão me prejudicar.
Eu confio no meu colega, fornecedor interno, se eu tiver certeza que ele me entregará o trabalho com exatidão e no tempo negociado e necessário.
Responsabilidade é garantir que a tarefa será executada com exatidão e no tempo esperado pelo seu cliente interno e externo.

•Um clima de negociação de expectativas
Negociar expectativas é fundamental no ambiente de trabalho, pois clarifica e abre os canais de comunicação, à medida que fica acertado o que um colega/área pode esperar do outro colega/área.

•Um clima saudável na solução de conflitos
Podemos considerar como conflito, uma divergência de opiniões sobre um assunto, uma divergência de interesses numa situação e a disputa de poder.

Uma boa forma de lidar com conflitos nas relações interpessoais é adotar a postura assertiva.

PARA O FUNCIONÁRIO

A grande dica ao funcionário é seguir a mensagem da história das três peneiras escrita por Arlinda Trindade:

D. Flora foi tranferida de seção na empresa onde trabalhava:

Chefe, o senhor nem imagina o que me contaram a respeito da Joaquina... Nem chegou a terminar a frase porque o Sr. Lico interrompeu:

Espere um pouco. O que vai contar já passou pelas três peneiras? Peneiras? Que peneiras, Sr. Lico?

A primeira é a da VERDADE. Tem certeza que esse fato é absolutamente verdadeiro?
Não, como posso! O que sei foi o que me contaram. Mas eu acho que...
Então, sua história já vazou na primeira peneira.

Vamos à Segunda peneira que é a da BONDADE. O que vai me contar é alguma coisa que gostaria que os outros dissessem a seu respeito?
claro que não! Deus me livre!
Então, sua história já vazou na segunda peneira.

Vamos à terceira, que é a da NECESSIDADE. A senhora acha mesmo necessário contar-me esse fato ou mesmo passá-lo adiante?
Não chefe, passando nessas Três peneiras, vi que não sobrou nada mesmo do que eu ia contar!!!

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